Comparativamente, tivemos poucos eventos traumáticos, sangrentos e que tivessem requerido decisões dramáticas (exceto para os pobres, de pouca ressonância na nossa cultura). Dos piores episódios, sobressaem a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai e a de Canudos. Mas, nesses, o governo foi tragado passivamente, não tendo alternativa senão salvar seu território.
Os EUA enfrentaram uma guerra sangrenta para alcançar sua independência. A nossa foi assunto de família, resolvido com elegância. A revolução Francesa abalou os alicerces da Nação, dizimou a aristocracia e, por décadas, deu emprego aos operadores de guilhotina. Nossa república é fruto de uma quartelada. Nos EUA, a libertação dos escravos precipitou uma das guerras civis mais brutais da história. Nela perderam a vida 620 000 soldados. No Brasil, a escravidão acabou, com uma penada, quando já estava moribunda. Nunca tivemos um presidente assassinado.
Que lição de civismo para os Estados Unidos! Nossas quarteladas do século XX são de opereta. Note-se que, nos vinte anos de período militar, morreram menos pessoas do que na confrontação de estudantes com a polícia em um estádio de futebol no México. E as matanças desenfreadas nas muitas revoluções mexicanas ou os milhares de mortos e desaparecidos no Chile e na Argentina? A Europa viveu duas grandes guerras, devastadoras, quando a classe média passou fome. Na segunda, 52 milhões pereceram. E isso depois das infindáveis guerras do passado, incluindo uma que se chamou Guerra dos 100 Anos! Só por obra de Mao, na China, foram-se 70 milhões.
Homem cordial? Sociedade cordial? Alguma coisa diferencia nossa história, poupada dos cataclismos medonhos que causaram indizível sofrimento a outros países. Louvemos a Jeová! Ou seria Tupan? Mas há o reverso da medalha.
O Estado brasileiro não precisou tomar decisões cruéis, de vida e morte ou diante de invasores mais fortes. Tampouco manejar pela força transformações de sistemas políticos ou econômicos, como na Rússia, no início do século passado, quando os alicerces foram sacudidos pela revolução comunista e se sucederam choques fratricidas. Anos antes, seus generais haviam incendiado e devastado uma faixa de terra de 100 quilômetros de largura, no próprio território, para derrotar as tropas de Napoleão.
Quem sabe, por falta de hecatombes, a história deixou de nos ensinar a tomar decisões duras e penosas, as que cortam na carne, as que pisam nos calos de muitos. Em situações em que não há consenso, ficamos paralisados. Toleramos o intolerável quando não encontramos um desenlace de conciliação.
Nossa sociedade, medrosa e indecisa, conviveu por meio século com a inflação. Não teve coragem de reformar a previdência, os impostos, a lei eleitoral, a trabalhista, a sindical, a judiciária e muitas outras. Deputados não ousam punir colegas delinqüentes. Não fazemos as reformas econômicas profundas, como fizeram Argentina, Peru, Chile. Assistimos impassíveis à nossa economia ser corroída pela china. Diante das desigualdades seculares, oferecemos esmolas pré-eleição. Sonhamos com a volta de Dom Sebastião – ou do Juscelino.
Será que esse é o preço de uma história mais plácida, que exigiu menos decisões dramáticas dos grandes atores? Será que, por não termos passado por situações de vida e morte, não aprendemos a tomar decisões penosas? Nosso homem cordial prefere viver com problemas a enfrenta-los, quando as soluções são conflitantes?
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