
Amizade
É um tácito contrato entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Digo sensíveis, porque um monge, um eremita pode não ser mau e viver sem conhecer a amizade. Digo virtuosas, porque os malvados só conhecem cúmplices, os lúbricos tem companheiros de deboche, os ambiciosos, associados, os políticos arrebanham os de feitio faccioso, os homens vulgares e ociosos tem ligações apenas, os príncipes, cortesãos; mas os homens virtuosos e só eles têm amigos.
Como considerar amigo?:
O lúbrico que não sabe dominar o próprio ventre, o desejo da bebida, da lascívia, do sono, da indolência. Porque esse que obedece a todas estas tendências e ignora tudo mais, nada faz de útil, nem a si mesmo;
O perdulário incapaz de bastar a si mesmo, sempre necessitado dos outros, que pede emprestado não paga e não da satisfação, que se ofende se não lhe emprestam;
E aquele que sabe aumentar seus haveres, mas desejoso de entesourar grande riqueza e por isso mesmo difícil de tratar nos negócios, mais amigo do ganho que da retribuição;
E o briguento pronto a criar para os amigos uma legião de inimigos;
E o homem que, sem ter nenhum desses defeitos deixa que lhe façam o bem sem lembrar-se de retribuir.
Os homens têm naturalmente o sentimento da amizade. Necessitam uns dos outros, rendem-se à piedade, socorrem-se mutuamente, compreendem-se e se mostram gratos. Mas possuem também o sentimento da inimizade. Quando suas idéias sobre os bens e os prazeres são as mesmas, lutam por alcançá-los. Quando divididos pelas opiniões, combatem-se uns aos outros: a guerra nasce da disputa e da cólera; a malevolência, dos desejos ambiciosos; o ódio, da inveja. Mas a amizade vence todos os obstáculos para unir os corações virtuosos: é que, graças à virtude, preferem os homens possuir em paz haveres moderados a tudo dominar pela guerra. Com fome ou sede, cordialmente dividem os alimentos e a bebida. Cobiçosos de um belo objeto, sabem resistir a si próprios para não afligir e ofender aqueles que devem respeitar. Não tomam das riquezas senão sua parte legítima, sem nenhuma idéia de cupidez, e demais auxiliam-se uns aos outros. Sabem resolver suas divergências não somente sem prejudicar-se, mas ainda com mútua vantagem, e impedir a cólera de ir até o rompimento. Enfim, repartindo suas riquezas com os amigos e olhando os bens de outros como os seus próprios, dirimem todo pretexto de inveja.
Criei esse texto com base em escritos de Voltaire e Xenofonte.


