domingo, 14 de novembro de 2010

Ponto de Referência

Toda avaliação científica carece de um ponto físico e imutável para cumprir a função de referencial, quando se trata de pessoas eu recomendo o seguinte:

Escolha três livros ou três filmes. Um que você goste, um que você deteste e um que você não entenda. Após alguns anos volte a ler os livros ou a ver os filmes. Fazendo assim, terá a exata medida de o quanto você mudou.

terça-feira, 27 de maio de 2008

APOLOGIA À AMIZADE



Amizade

É um tácito contrato entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Digo sensíveis, porque um monge, um eremita pode não ser mau e viver sem conhecer a amizade. Digo virtuosas, porque os malvados só conhecem cúmplices, os lúbricos tem companheiros de deboche, os ambiciosos, associados, os políticos arrebanham os de feitio faccioso, os homens vulgares e ociosos tem ligações apenas, os príncipes, cortesãos; mas os homens virtuosos e só eles têm amigos.

Como considerar amigo?:

O lúbrico que não sabe dominar o próprio ventre, o desejo da bebida, da lascívia, do sono, da indolência. Porque esse que obedece a todas estas tendências e ignora tudo mais, nada faz de útil, nem a si mesmo;

O perdulário incapaz de bastar a si mesmo, sempre necessitado dos outros, que pede emprestado não paga e não da satisfação, que se ofende se não lhe emprestam;

E aquele que sabe aumentar seus haveres, mas desejoso de entesourar grande riqueza e por isso mesmo difícil de tratar nos negócios, mais amigo do ganho que da retribuição;

E o briguento pronto a criar para os amigos uma legião de inimigos;

E o homem que, sem ter nenhum desses defeitos deixa que lhe façam o bem sem lembrar-se de retribuir.


Os homens têm naturalmente o sentimento da amizade. Necessitam uns dos outros, rendem-se à piedade, socorrem-se mutuamente, compreendem-se e se mostram gratos. Mas possuem também o sentimento da inimizade. Quando suas idéias sobre os bens e os prazeres são as mesmas, lutam por alcançá-los. Quando divididos pelas opiniões, combatem-se uns aos outros: a guerra nasce da disputa e da cólera; a malevolência, dos desejos ambiciosos; o ódio, da inveja. Mas a amizade vence todos os obstáculos para unir os corações virtuosos: é que, graças à virtude, preferem os homens possuir em paz haveres moderados a tudo dominar pela guerra. Com fome ou sede, cordialmente dividem os alimentos e a bebida. Cobiçosos de um belo objeto, sabem resistir a si próprios para não afligir e ofender aqueles que devem respeitar. Não tomam das riquezas senão sua parte legítima, sem nenhuma idéia de cupidez, e demais auxiliam-se uns aos outros. Sabem resolver suas divergências não somente sem prejudicar-se, mas ainda com mútua vantagem, e impedir a cólera de ir até o rompimento. Enfim, repartindo suas riquezas com os amigos e olhando os bens de outros como os seus próprios, dirimem todo pretexto de inveja.

Criei esse texto com base em escritos de Voltaire e Xenofonte.

domingo, 25 de maio de 2008

CARÁTER

Deriva da palavra grega impressão, gravura. É aquilo que a natureza gravou em nós. Podemos apagá-lo? Grave pergunta essa. Se eu tiver um nariz torto e dois olhos de gato, posso escondê-los com uma máscara. Terei mais poder sobre o caráter que me atribui a natureza?

Naturam expellas furca, tamen usque recurret (Expulsai o que é natural, voltará a galope).

A religião, a moral põem um freio a força do temperamento natural, mas não podem destruí-lo.

Experimentai espertar o indolente com uma atividade contínua, resfriar, pela apatia, a alma turbulenta do impulso, inspirar o gosto pela música e pela poesia ao que carece de sensibilidade e ouvido: não o haveis de conseguir nunca, como não conseguireis dar vista a um cego de nascença. Podemos aperfeiçoar, burilar, esconder as virtudes e defeitos com que a natureza nos dotou: nada mais.

Texto extraído do livro “Dicionário Filosófico”. Voltaire

domingo, 11 de maio de 2008

A HIPÓTESE DE GAIA

Não se preocupe com o Planeta, preocupe-se com a humanidade.

Gaia é um organismo vivo, e como qualquer organismo vivo é capaz de regular sua temperatura, assim como outras condições corpóreas: a composição de sua atmosfera, a salinidade de seus oceanos e assim por diante.

E como qualquer ser vivo Gaia possui um sistema imunológica que elimina organismos patógenos. Então, ou vivemos em simbiose ou a hospedeira vai por a gente para fora, como fez com os dinossauros e outros organismos indesejáveis.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

LUXO


O luxo é a manifestação da riqueza grosseira que quer impressionar quem permaneceu pobre. É a manifestação da importância que se dá à exterioridade e revela a falta de interesse por tudo o que seja elevado e cultural. É o triunfo da aparência sobre a substância.

O luxo é uma necessidade para muitas pessoas que querem ter um sentimento de domínio sobre os outros. Mas os outros, se são pessoas civilizadas, sabem que o luxo é fingimento; se são ignorantes, admiram e talvez até invejem os que vivem no luxo. Mas a quem interessa a admiração dos ignorantes? Aos estúpidos, talvez.

O luxo, é de fato, uma manifestação de estupidez. Por exemplo, para que servem torneiras de ouro?


O luxo, é pois, o uso errado de materiais dispendiosos sem melhoria das funções. É, portanto, uma estupidez.

Naturalmente, o luxo está ligado à arrogância e ao domínio sobre os outros. Está ligado a um falso sentido de autoridade. Antigamente, a autoridade era o feiticeiro, que tinha ornamentos e objetos que somente ele podia ter. O rei e os poderosos usavam caríssimos tecidos e peliças. Quanto mais o povo se mantinha na ignorância, tanto mais a autoridade se mostrava coberta de riquezas. E ainda hoje, em muitos paises, observam-se essas manifestações de aparências miraculosas. Atualmente, porém, entre as pessoas sãs, procura-se o conhecimento da realidade das coisas e não a aparência. O modelo já não é o luxo e a riqueza já não é tanto o ter quanto o ser (para citar Erich Fromm).

À medida que diminui o analfabetismo, cai a autoridade aparente e, em lugar da autoridade imposta surge a autoridade reconhecida. No passado, um cretino sentado em um enorme trono podia, talvez, impressionar, mas hoje, e sobretudo amanhã, espera-se que não seja mais assim. Desaparecerão os tronos e as poltronas de luxo para os dirigentes impostos, os móveis especiais parar os chefes, as grandes cadeiras luxuosas colocadas em estrados de mogno, os ornamentos, as hierarquias e tudo o que servia para impressionar. Em suma, quero dizer que o luxo não é uma questão de design.


Texto extraído do livro “Das Coisas Nascem Coisas” do escritor Bruno Munari.

sábado, 3 de maio de 2008

ATUALIZAÇÃO PROFISSIONAL

No final do século XVI, houve uma revolução na arte da esgrima; foi introduzido um bloqueio. Era um golpe novo e devastador. Uma nova forma de desviar uma investida do adversário e quem sabia usa-lo vencia.

Quem não o conhecia estava em franca desvantagem e era quase certo que morreria nas mãos de quem aprendera a nova técnica.

Moral da história: em qualquer campo que você atue, considere manter-se atualizado uma questão de sobrevivência.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

POVO PACÍFICO OU PASSIVO?

Comparativamente, tivemos poucos eventos traumáticos, sangrentos e que tivessem requerido decisões dramáticas (exceto para os pobres, de pouca ressonância na nossa cultura). Dos piores episódios, sobressaem a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai e a de Canudos. Mas, nesses, o governo foi tragado passivamente, não tendo alternativa senão salvar seu território.

Os EUA enfrentaram uma guerra sangrenta para alcançar sua independência. A nossa foi assunto de família, resolvido com elegância. A revolução Francesa abalou os alicerces da Nação, dizimou a aristocracia e, por décadas, deu emprego aos operadores de guilhotina. Nossa república é fruto de uma quartelada. Nos EUA, a libertação dos escravos precipitou uma das guerras civis mais brutais da história. Nela perderam a vida 620 000 soldados. No Brasil, a escravidão acabou, com uma penada, quando já estava moribunda. Nunca tivemos um presidente assassinado.

Que lição de civismo para os Estados Unidos! Nossas quarteladas do século XX são de opereta. Note-se que, nos vinte anos de período militar, morreram menos pessoas do que na confrontação de estudantes com a polícia em um estádio de futebol no México. E as matanças desenfreadas nas muitas revoluções mexicanas ou os milhares de mortos e desaparecidos no Chile e na Argentina? A Europa viveu duas grandes guerras, devastadoras, quando a classe média passou fome. Na segunda, 52 milhões pereceram. E isso depois das infindáveis guerras do passado, incluindo uma que se chamou Guerra dos 100 Anos! Só por obra de Mao, na China, foram-se 70 milhões.

Homem cordial? Sociedade cordial? Alguma coisa diferencia nossa história, poupada dos cataclismos medonhos que causaram indizível sofrimento a outros países. Louvemos a Jeová! Ou seria Tupan? Mas há o reverso da medalha.

O Estado brasileiro não precisou tomar decisões cruéis, de vida e morte ou diante de invasores mais fortes. Tampouco manejar pela força transformações de sistemas políticos ou econômicos, como na Rússia, no início do século passado, quando os alicerces foram sacudidos pela revolução comunista e se sucederam choques fratricidas. Anos antes, seus generais haviam incendiado e devastado uma faixa de terra de 100 quilômetros de largura, no próprio território, para derrotar as tropas de Napoleão.

Quem sabe, por falta de hecatombes, a história deixou de nos ensinar a tomar decisões duras e penosas, as que cortam na carne, as que pisam nos calos de muitos. Em situações em que não há consenso, ficamos paralisados. Toleramos o intolerável quando não encontramos um desenlace de conciliação.

Nossa sociedade, medrosa e indecisa, conviveu por meio século com a inflação. Não teve coragem de reformar a previdência, os impostos, a lei eleitoral, a trabalhista, a sindical, a judiciária e muitas outras. Deputados não ousam punir colegas delinqüentes. Não fazemos as reformas econômicas profundas, como fizeram Argentina, Peru, Chile. Assistimos impassíveis à nossa economia ser corroída pela china. Diante das desigualdades seculares, oferecemos esmolas pré-eleição. Sonhamos com a volta de Dom Sebastião – ou do Juscelino.

Será que esse é o preço de uma história mais plácida, que exigiu menos decisões dramáticas dos grandes atores? Será que, por não termos passado por situações de vida e morte, não aprendemos a tomar decisões penosas? Nosso homem cordial prefere viver com problemas a enfrenta-los, quando as soluções são conflitantes?